O túnel imerso Santos-Guarujá representa um marco para a infraestrutura nacional ao incorporar uma metodologia construtiva inédita no Brasil.
Com soluções de alta complexidade e precisão milimétrica, o empreendimento busca ampliar a conexão entre os dois municípios paulistas e estabelecer novas referências em Engenharia para a execução de projetos de grande porte no país.
Durante a programação da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (SOEA), em Aracaju (SE), que ocorreu entre os dias 13 e 16 de outubro, o painel “Túnel imerso Santos-Guarujá: um novo paradigma da Engenharia brasileira” trouxe os detalhes técnicos e operacionais da construção.
O palestrante convidado foi o diretor técnico da TSG Concessionária, o engenheiro geólogo Ricardo Andrade, mestre em Engenharia Geológica pela Universidade de Coimbra, que acumula mais de 35 anos de experiência em grandes soluções de transporte e mobilidade urbana na América Latina e na Europa, incluindo a atuação como coordenador do projeto do próprio túnel entre 2011 e 2013, além de liderar o VLT Carioca e a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo. A mediação foi realizada pelo conselheiro federal do Confea, o engenheiro de produção Daniel Robles.
Para o setor profissional e governamental, o empreendimento consolida-se como um divisor de águas na Engenharia de Infraestrutura, servindo de referência técnica e de gestão para futuras obras de grande porte em regiões litorâneas e de alta densidade urbana.
Nesse sentido, Andrade destacou a importância da parceria e da participação de órgãos públicos e da comunidade local.
“O relacionamento com as prefeituras de Santos e do Guarujá é extraordinário; todos estão empenhados e comprometidos com as etapas de execução. Além disso, os representantes e moradores também colaboram, pois entendem que esta construção é muito importante para a história do Brasil”, disse.
Presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS), o engenheiro civil André de Fazio Neto esteve no evento juntamente com a delegação estadual do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) e ressaltou o potencial da iniciativa para impulsionar o desenvolvimento regional.
“Além de promover avanços em mobilidade e sustentabilidade para toda a Baixada Santista, o túnel representa uma oportunidade de transferência de tecnologia e conhecimento. O Brasil passará a dominar uma solução de Engenharia que ainda não possui, com benefícios que contribuem para o progresso nacional”, afirmou.
Durante sua apresentação, Andrade detalhou a metodologia do túnel. O processo de imersão é dividido em quatro etapas principais: reboque, posicionamento, lastro e descida, e o assentamento no leito de brita. Para isso, a dragagem no Canal de Santos movimentará um volume total de 2,5 milhões de m³ de sedimentos até alcançar a cota de fundo de escavação de 35 metros de profundidade.
Na fase de fundação, será empregado um sistema responsável por realizar a deposição e o nivelamento do leito de brita em uma única operação com precisão milimétrica (variação de ±25 mm vertical e ±10 mm de verificação acústica).
O controle da imersão será realizado por lastro de água distribuído em seis tanques, mantendo de 1% a 3% de sobrepeso em relação ao empuxo. A velocidade de descida será monitorada gradualmente, passando de 25 cm/min na fase inicial para 2 a 5 cm/min nos últimos 50 centímetros.
O Canal de Santos contará com monitoramento contínuo suportado por modelagem computacional de dinâmica de fluidos (CFD) e equipamentos de alta tecnologia para guiar o plano de navegação. Serão controlados parâmetros de hidrodinâmica (ondas, marés e correntes), transporte de sedimentos (turbidez), qualidade ambiental (oxigênio dissolvido, pH e temperatura) e condições de densidade e salinidade da água.
Além da estrutura física em concreto e aço, a proposta integra uma infraestrutura digital dotada de fibra óptica, rede backbone 5G, sensores de tensão, deformação e temperatura.
O cronograma prevê, neste ano, a elaboração do projeto funcional e dos projetos executivos. Já em 2027, serão instalados os canteiros de obras, enquanto 2028 será dedicado à construção da doca seca e à execução da dragagem.
A fabricação e a instalação dos módulos imersos estão previstas para 2029, seguidas pela implantação da rede viária e dos edifícios de acesso, em 2030. Já em 2031, a etapa contemplará a integração dos sistemas e o comissionamento do empreendimento.
Fonte: Revista Grandes Construções

