Em um pomar perto de Augsburg, na Alemanha, uma casa de madeira de 80 m² guarda uma surpresa por trás da aparência de um cubo: parte de suas paredes também funciona como armário. A construção dispensa cola nas ligações estruturais e utiliza peças preparadas para encaixar umas nas outras.
Batizada de Haus Anton II, a residência foi concluída em 2024, com dois pavimentos e cerca de sete metros de altura. O trabalho reúne os arquitetos Manfred Lux e Antxon Cánovas e leva a madeira para a estrutura, as divisórias, os acabamentos e parte do mobiliário.
A Wallpaper, revista especializada em arquitetura, design e cultura, apresentou a residência em 11 de março de 2025. O projeto nasceu como um estudo de construção com madeira e ganhou aplicação real ao receber a encomenda de um casal interessado nesse modo de morar.
Uma casa de madeira organizada em módulos de 80 centímetros
A organização começa por uma malha de 80 centímetros, uma sequência de medidas que orienta a posição dos elementos que sustentam a casa. Essa referência permite planejar peças compatíveis e repetir soluções ao longo da construção.
O número funciona como uma medida de organização, usada para relacionar estrutura, divisórias e espaços internos. Assim, o desenho da residência já considera como seus componentes serão fabricados e montados.
As peças passam por máquinas de controle numérico computadorizado, conhecidas pela sigla CNC. Em linguagem simples, o computador orienta o corte e a abertura dos encaixes a partir do desenho do projeto, enquanto a carpintaria cuida da preparação e da montagem do conjunto.
Encaixes de carpintaria ocupam o lugar da cola estrutural
Na Haus Anton II, a união entre os componentes depende de encaixes de madeira, em vez de adesivos estruturais permanentes. O sistema combina conhecimentos tradicionais de carpintaria com a precisão da fabricação digital.
O resultado exige planejamento antes da obra. As peças precisam chegar à montagem com formas compatíveis, e cada ligação deve suportar os esforços previstos no projeto. Por isso, dispensar cola não significa construir sem cálculo ou simplesmente empilhar madeira.
A distinção também vale para os materiais: ligações estruturais sem cola ou metal não tornam a residência inteira livre de outros componentes. Instalações, equipamentos e pontos específicos de contato com outras partes da obra precisam ser considerados separadamente.
Quando a parede também vira armário, sobra menos espaço desperdiçado
O freixo, espécie de madeira usada no projeto, aparece tanto nas partes que sustentam o edifício quanto nos elementos internos. Armários, bancadas e divisórias integram o mesmo raciocínio de construção, reduzindo a separação entre a casa e seus móveis.
A Wallpaper, revista especializada em arquitetura, design e cultura, destacou a presença de armários integrados e superfícies de madeira sem tratamento. A estrutura permanece visível e participa do acabamento, enquanto o mobiliário incorporado atende a parte das necessidades dos moradores.
Para visualizar a escala, vale imaginar um apartamento brasileiro de 80 m². Na residência alemã, essa área se distribui por dois pavimentos, e os espaços de guardar objetos fazem parte da própria organização das paredes, uma escolha útil quando cada trecho do interior precisa ter função.
Instalações modernas precisam entrar no planejamento da montagem
A fabricação das peças de madeira não elimina o trabalho de outros profissionais. A casa recebeu instalações elétricas e sistemas contemporâneos, acrescentados por especialistas à construção, que também contou com o trabalho de uma pequena equipe e do próprio arquiteto Manfred Lux.
Para aplicar a mesma ideia em outra residência, seria necessário planejar os caminhos dos fios e das tubulações, além do acesso para reparos. Banheiro e cozinha exigem soluções próprias, e a possibilidade de desmontar a madeira não dispensa o cuidado com as conexões de água, esgoto e energia.
Desmontar a estrutura preserva a possibilidade de usar as peças novamente
A escolha dos encaixes permite pensar na casa além de sua primeira montagem. Sem depender de uniões coladas permanentes, o conjunto foi concebido para permitir a separação de seus componentes, preservando a possibilidade de reaproveitamento.
Esse é um princípio da economia circular, que procura manter materiais em uso e reduzir o descarte. No caso da residência, a vantagem está em planejar a retirada das peças desde o desenho inicial, em vez de tratar a demolição como único destino possível.
Uma eventual remontagem, porém, exigiria mais que soltar os encaixes. Seria preciso avaliar o estado dos componentes, organizar sua retirada, cuidar do transporte e preparar o novo local. Ser desmontável não significa que a casa já tenha sido desmontada e reconstruída, nem que todas as suas partes recebam o mesmo tratamento.
O que essa construção pode ensinar ao Brasil
A repetição das medidas abre caminho para adaptar o sistema a outras configurações. Uma aplicação brasileira precisaria considerar a madeira disponível, a fabricação das peças, o transporte e a equipe responsável pela execução.
Também seria necessário verificar as regras de construção e proteção contra incêndio aplicáveis ao local, além das condições de umidade e manutenção. A experiência alemã, por si só, não comprova atendimento às exigências brasileiras nem permite copiar todas as escolhas de material sem avaliação técnica.
A Haus Anton II reúne moradia, estrutura e mobiliário em um projeto que considera o reaproveitamento desde o início. Seu interesse está na combinação entre fabricação precisa, encaixes e uso inteligente do espaço, com limites que precisam acompanhar qualquer tentativa de repetição.
Fonte: Click Petróleo e Gás

