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Casas de papel que resistem a terremotos

Casas de papel que aguentam terremotos, duram anos e custam menos que um celular de última geração. Parece improvável, mas é exatamente o que o arquiteto japonês Shigeru Ban, vencedor do Prêmio Pritzker de 2014, vem construindo ao redor do mundo desde 1995. Segundo informações do portal cronista, as casas de papel são feitas com tubos de papelão reciclado, têm 4 por 4 metros, custam cerca de US$ 2 mil por unidade e podem ser montadas em menos de um dia por pessoas comuns, sem nenhum equipamento pesado ou treinamento técnico. Algumas dessas estruturas já resistiram por mais de uma década.

A invenção surgiu da necessidade mais urgente possível. Após o terremoto de Kobe, em 1995, mais de 300 mil pessoas ficaram desabrigadas no Japão. Ban, por meio de sua ONG Voluntary Architects’ Network, projetou as casas de papel como alternativa às tendas tradicionais de emergência oferecendo estrutura sólida, ventilação natural e resistência a réplicas sísmicas por uma fração do custo de moradias temporárias convencionais. Desde então, o modelo foi replicado na Turquia, Índia, Ruanda, Kosovo e até nos incêndios de Maui em 2023.

Do que são feitas as casas de papel e por que elas funcionam

Imagem: Shigeru Ban Architects

O material principal são tubos de papelão reciclado com 106 milímetros de diâmetro e 4 milímetros de espessura. Esses tubos, que Ban chama de “troncos de papel”, formam as paredes das casas de papel e são surpreendentemente resistentes quando combinados com reforço horizontal de barras de aço.

O papelão reciclado tratado pode suportar cargas estruturais comparáveis às de materiais convencionais uma descoberta que mudou a percepção da engenharia sobre materiais recicláveis.

A base é construída com caixas de cerveja cheias de areia, o que dá estabilidade contra inundações e movimentos do solo. Sobre elas, vai um piso de madeira compensada. O telhado usa tecido impermeável tipo tenda, com fita adesiva e esponjas para vedação contra umidade.

Todos os componentes das casas de papel são reutilizáveis ou recicláveis: quando desmontadas, não geram resíduos podem ser recicladas integralmente ou remontadas em outro local. É um exemplo concreto do que arquitetos chamam de economia circular aplicada à construção.

Como oito pessoas montam casas de papel em menos de seis horas

Imagem: Shigeru Ban Architects

A velocidade de construção é uma das características mais impressionantes. Sem máquinas ou mão de obra especializada, oito pessoas da própria comunidade conseguem montar uma casa de papel completa em menos de seis horas ou em dois dias, se precisarem preparar todo o material desde o início.

O processo é intencionalmente simples para que qualquer comunidade possa replicá-lo sem depender de técnicos externos.

A montagem segue quatro etapas: posicionamento da base com caixas de cerveja e sacos de areia, instalação do piso de compensado, levantamento das paredes com os tubos de papelão e barras de aço, e colocação da cobertura impermeável com sistema de ventilação.

As casas de papel devolvem dignidade às vítimas de desastres de forma rápida em vez de semanas ou meses em tendas precárias, as pessoas têm um abrigo sólido, ventilado e higiênico no mesmo dia. É uma diferença que parece pequena no papel, mas é transformadora para quem perdeu tudo.

Por que casas de papel de US$ 2 mil competem com soluções que custam milhões

O custo de US$ 2 mil por unidade coloca as casas de papel numa categoria onde praticamente nenhuma outra solução habitacional consegue competir.

Para governos e ONGs que precisam abrigar centenas ou milhares de famílias após um desastre, a diferença entre US$ 2 mil e US$ 20 mil por unidade significa a diferença entre atender a todos ou deixar a maioria sem teto. O dinheiro economizado pode ser direcionado para alimentação, saúde e reconstrução permanente.

Do ponto de vista ambiental, as casas de papel representam o oposto das construções emergenciais tradicionais, que frequentemente usam materiais não recicláveis e geram toneladas de resíduos quando desmontadas.

A pegada de carbono é mínima, o desperdício é zero e a capacidade de adaptar o projeto a materiais locais como bambu na Índia ou esteiras de junco em Ruanda torna as casas de papel replicáveis em praticamente qualquer contexto cultural e geográfico. Ban provou que sustentabilidade e velocidade não são opostos; são complementares.

Onde as casas de papel já foram construídas ao redor do mundo

Desde Kobe em 1995, as casas de papel foram levadas a contextos de crise em pelo menos seis países. Na Índia, em 2001, após o terremoto de Gujarat, Ban adaptou o design usando materiais locais. Em Ruanda, as casas de papel abrigaram sobreviventes do genocídio.

Na Turquia, no Kosovo e nos incêndios de Maui em 2023, o modelo foi ajustado às condições climáticas e culturais de cada região sem perder suas características fundamentais: baixo custo, rapidez e reciclabilidade total.

Em cada caso, as comunidades locais participaram da construção um aspecto que Ban considera tão importante quanto o design em si.

As casas de papel não são apenas abrigos; são ferramentas de reconstrução comunitária que envolvem as vítimas no processo de recuperação, em vez de tratá-las como receptoras passivas de ajuda. Quando oito pessoas de uma comunidade montam juntas uma casa em seis horas, o resultado vai além de quatro paredes e um teto: é a retomada do controle sobre a própria vida.

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