\

O papel da química para a construção de edifícios sustentáveis

A indústria química está na base de todos os setores de transformação, como agricultura, saúde e higiene, alimentos, transporte, vestuário, mobiliário, eletrodomésticos e eletrônicos, energia, saneamento e construção civil.

O setor também é essencial para o desenvolvimento da bioeconomia por ser capaz de agregar valor aos recursos biológicos, desenvolver e implementar tecnologias que transformam a biomassa em produtos, como os bioplásticos, e otimizar resíduos de base biológica, que podem substituir a matéria-prima de origem fóssil.

Os produtos e as inovações da química são essenciais para que as demais cadeias produtivas possam produzir e reduzir suas emissões. Isso é fundamental em um setor como a construção civil, que responde por cerca de 40% de todas as emissões de CO2 na atmosfera, consome quase 50% das matérias-primas do mundo e gera 12 toneladas de resíduos por pessoa a cada ano, segundo o World Green Building Council, rede global formada por mais de 70 conselhos de construção verde, incluindo o Brasil.

A busca pela descarbonização – Os produtos químicos já contribuem para que a construção civil seja mais sustentável. O setor químico tem contribuído para que a construção civil brasileira possa solucionar dois de seus principais desafios, a manutenção do conforto térmico, que demanda alto uso de aparelhos como ventiladores e ar-condicionado, e a necessidade de as construções usarem uma matriz energética renovável ao longo de seu ciclo de vida.

O poliuretano (PU), por exemplo, está presente na parte interna de telhas e divisórios e na composição de adesivos, selantes e espumas expansivas. Devido à sua capacidade de atuar como isolante térmico, o que reduz a demanda no uso de aparelhos como ventiladores e ar-condicionado, ser impermeabilizante e proporcionar isolamento acústico, os produtos formulados com PU podem ser aplicados em coberturas, revestimento de tanques, lajes, pisos, entre outros.

Outro benefício do poliuretano é sua capacidade de aderir a diferentes materiais, o que possibilita sua aplicação em concreto, pedra, vidro, metal, cerâmica e em uma grande variedade de plásticos. O PU também pode receber tratamento para retardar a propagação das chamas, atendendo as necessidades de segurança de ambientes residenciais e comerciais.

A indústria química é essencial para os sistemas fotovoltaicos que crescem no país e fornecem energia sustentável para residências e empresas.

Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), em junho de 2025 o Brasil tinha mais de 3,6 milhões de sistemas instalados em telhados, fachadas e pequenos terrenos, crescimento de 80% em comparação com junho de 2023, quando o número era de 2 milhões de sistemas.

As células fotovoltaicas contêm produtos como silício, polímeros, selantes, entre outros. O poliuretano, além ser usado na composição de selantes, pode estar presente na estrutura das placas fotovoltaicas, em substituição ao alumínio, com a vantagem de ser um melhor isolante térmico e mais leve. Por ser um isolante elétrico o PU pode ser usado para colar, proteger e melhorar a interação entre componentes eletrificados como painéis solares e transformadores.

Cenário brasileiro de construções sustentáveis – O panorama nacional é melhor em comparação à média global dos dados do World Green Building Council. O Brasil está no ranking dos 10 países com mais metragem certificada, superior a 2 milhões de m2, no LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), certificação desenvolvida pela U.S. Green Building Council (USGBC) para avaliar o desempenho das construções no uso eficiente de energia, consumo de água, seleção de materiais e impacto ambiental.

A química pode ajudar o setor a ser ainda mais sustentável. A maior parte do poliuretano usado na construção civil ainda é produzido com matéria-prima de base petroquímica. Mas por meio da evolução da logística reversa, do processo de reciclagem e de investimentos na bioquímica, também chamada de química verde, o setor já produz formulações de poliol, um dos produtos que compõem o poliuretano, feitos a partir de resíduos do agronegócio.

Já os investimentos em reciclagem e na logística reversa possibilitam transformar resíduos de poliuretano da cadeia do frio em novas espumas feitas, exclusivamente, com PU reciclado e poliol de fontes renováveis, que podem ser usados no núcleo de portas ou divisórias. Este produto sustentável tem as mesmas características do PU produzido com matéria-prima de base petroquímica, como leveza, conforto térmico e acústico, além de poder receber tratamento para não propagar chamas.

Como o ranking do Green Building Council aponta, a iniciativa privada já investe para aumentar a sustentabilidade de seus edifícios. Mas, para que a sustentabilidade seja uma prática que compreenda toda a sociedade e pessoas com menor poder aquisitivo possam ter acesso a construções mais modernas e sustentáveis, é essencial o avanço do projeto EDinova, lançado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e que tinha previsão de ser iniciado em 2025.

O projeto visa promover edifícios com zero emissões de carbono, por meio de quatro ações principais: A primeira é a construção e a adoção de um roadmap com regulamentações que aumentem a coerência das políticas e fortaleçam os ecossistemas de inovação para acelerar a expansão de edifícios sustentáveis.

A segunda consiste na sensibilização e demonstração da viabilidade de edificações de baixo carbono, criação de incentivos e instrumentos financeiros e a gestão da informação e conhecimento sobre o processo para tornar as construções mais sustentáveis. A terceira é o fortalecimento de instrumentos inovadores de financiamento para expansão e garantia de investimento de longo prazo. A quarta é a criação de uma plataforma de conhecimento para compartilhar as experiências, difundir as boas práticas e as lições aprendidas.

A indústria química já colabora e será essencial para descarbonizar a construção civil.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), a cada R$ 1 milhão de aumento de produção na química, em especial a verde, pode gerar um acréscimo de R$ 1,78 milhão ao PIB nacional e até 30 novos empregos. A implementação de um programa que estimule a adoção de tecnologias para tornar as edificações mais sustentáveis pode promover o ganho de escala, a manutenção da produção e dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, que possibilitam reduzir o uso de recursos não renováveis e aumentar a sustentabilidade nas edificações brasileiras.

Related posts

Projeto de torre de turbina sustentável utilizará aço do Reino Unido

Casal mostra como fez um muro de arrimo no sítio usando 400 pneus velhos

Um dos maiores parques eólicos da Europa está sendo construído na Polônia