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Hong Kong vai ganhar em 2027 um arranha-céu deitado

Em 17 de novembro de 2025, segunda-feira, a incorporadora Henderson Land Development revelou oficialmente o nome e o projeto do Central Yards, um empreendimento de uso misto na Nova Orla Central de Hong Kong, concebido como um arranha-céu horizontal apelidado de The Bridge, ou A Ponte. Em vez de seguir a tradição vertical da cidade, o edifício vai se estender por cerca de 400 metros ao longo do Victoria Harbour, formando a estrutura arquitetônica mais longa do distrito Central e desenhando um novo horizonte na orla. O presidente da Henderson Land, Martin Lee Ka-shing, afirmou que o projeto nasce do compromisso e do amor do grupo pela cidade, e que pretende conectar varejo, cultura, comércio, natureza e entretenimento em um único espaço.

O conceito de um arranha-céu deitado, conhecido em inglês como groundscraper, é uma resposta direta a desafios urbanos específicos de Hong Kong. O terreno fica dentro de um corredor visual protegido por lei, que impõe limites rígidos de altura para preservar a vista do Victoria Harbour, o que torna impossível erguer mais uma torre alta no local. Em vez de criar uma parede vertical entre a cidade e o mar, os planejadores optaram por uma estrutura baixa e fluida, que permite movimento, abertura e a criação de amplos espaços públicos. O arranha-céu horizontal é, portanto, uma escolha de planejamento urbano, e não um capricho estético.

O que é o Central Yards, o arranha-céu horizontal de Hong Kong

O Central Yards é um empreendimento de uso misto que soma mais de 1,6 milhão de pés quadrados de área bruta, o equivalente a cerca de 150 mil metros quadrados, entregue em duas fases. A Fase 1 tem inauguração prevista para 2027, enquanto a Fase 2 está programada para 2032. O complexo vai abrigar mais de 700 mil pés quadrados de escritórios de alto padrão, com a maior laje de escritório do distrito comercial de Hong Kong, além de área comercial, espaços culturais e amplas zonas verdes abertas ao público.

O projeto foi concebido pela Henderson Land em parceria com um time internacional de escritórios de arquitetura e design. A liderança de design é do Lead8, de Hong Kong, em colaboração com o AL_A, da arquiteta britânica Amanda Levete, o UNStudio, da Holanda, o paisagismo da PWP Landscape Architecture, da Califórnia, e a iluminação do Speirs Major, de Londres. Essa combinação de estúdios renomados é o que dá ao arranha-céu horizontal sua identidade de espinha urbana, conectando os diferentes bairros do Central à orla marítima em um só gesto arquitetônico.

Por que construir na horizontal em uma das cidades mais verticais do mundo

Hong Kong é, possivelmente, a cidade mais vertical do planeta, com quase 700 torres acima de 150 metros de altura, um recorde mundial. Justamente por isso, a decisão de construir um edifício deitado chama tanta atenção. O motivo central é a regulação. O terreno está dentro de uma área de proteção visual que limita severamente a altura das construções, para que nada bloqueie a vista icônica do Victoria Harbour, um dos cartões-postais mais valiosos da Ásia.

Além da restrição legal, há uma intenção urbanística clara. Em vez de erguer uma muralha de concreto e vidro entre a cidade e o mar, o projeto aposta em um desenho baixo e permeável, que convida o pedestre a atravessar, circular e contemplar a paisagem. O resultado pretendido é um espaço público vivo de dia e de noite, com terraços, áreas verdes, um teatro e caminhos para pedestres, algo que um arranha-céu tradicional dificilmente conseguiria oferecer no mesmo terreno, justamente por concentrar tudo na vertical.

O jardim suspenso de 300 metros e a engenharia viva do projeto

Um dos maiores destaques do Central Yards é o jardim suspenso de 300 metros de extensão no topo da estrutura, voltado para o Victoria Harbour. O espaço vai reunir mais de 400 árvores e 280 espécies de plantas, criando zonas naturalmente mais frescas, combinadas a fontes e espelhos d’água integrados ao paisagismo. No total, cerca de 28 mil metros quadrados serão dedicados a áreas verdes distribuídas por vários níveis e totalmente acessíveis ao público, em um conceito de oásis dentro da selva de concreto.

Mas o jardim não é apenas decoração: é engenharia viva. Uma árvore adulta pode pesar até uma tonelada, e com mais de 400 árvores, isso significa várias centenas de toneladas adicionais sobre a estrutura, uma carga considerável que os engenheiros precisam calcular com precisão. Para sustentar essa floresta urbana, o arranha-céu horizontal vai integrar sistemas de captação de água da chuva e irrigação inteligente, com sensores de umidade que ajustam o fornecimento de água conforme a necessidade real das plantas, reduzindo desperdício.

Teatro, escritórios e varejo: a cidade dentro da cidade

O Central Yards foi pensado como uma cidade dentro da cidade. No térreo, espaços ao ar livre vão cercar uma avenida principal repleta de lojas, contribuindo para a ampla área comercial do projeto. A partir de 2027, com a abertura da Fase 1, moradores e visitantes poderão circular pelos pátios, boutiques, terraços e zonas culturais, em um distrito desenhado para ser destino, e não apenas passagem.

Entre os equipamentos culturais, o destaque é um teatro com capacidade para 1.100 espectadores, projetado segundo padrões internacionais de cenografia e iluminação, apto a receber espetáculos de grande porte. Para uma cidade global como Hong Kong, que recentemente inaugurou o Kai Tak Sports Park, com 28 hectares, e sediou shows como o do Coldplay, ter um novo polo cultural integrado a um arranha-céu de escritórios reforça a estratégia de reposicionar a cidade como capital cultural e centro de eventos da Ásia.

Os desafios de engenharia à beira do Victoria Harbour

Construir tão próximo ao mar impõe desafios técnicos importantes. O complexo ficará totalmente exposto ao sal e à maresia, o que exige o uso de materiais resistentes à corrosão, como o aço inoxidável, em pontos estratégicos da estrutura e da fachada. Além disso, Hong Kong enfrenta tufões com frequência, o que obriga tanto a estrutura quanto a fachada a resistir a ventos extremos sem comprometer a segurança nem o conforto dos ocupantes.

As imagens divulgadas mostram uma sequência de volumes de vidro com linhas suaves e fluidas, ligados por passarelas elevadas e cercados de vegetação. Grandes aberturas atravessam os volumes, criando terraços protegidos e canais que levam luz natural e ar fresco para o interior do edifício. À noite, a fachada dinâmica vai se transformar em um espetáculo de luzes coreografado, pensado para destacar a estrutura durante eventos e, ao mesmo tempo, minimizar a poluição luminosa, segundo o estúdio de iluminação responsável pelo arranha-céu horizontal.

Sustentabilidade e eficiência energética do Central Yards

A sustentabilidade é um dos pilares do discurso da Henderson Land sobre o projeto. A incorporadora promete uma fachada inteligente capaz de reduzir o consumo de energia em até 30% em comparação com escritórios de padrão A convencionais. Essa eficiência viria de janelas dinâmicas, vidros de alto desempenho e protetores solares inteligentes que se ajustam às condições de clima e de luz solar ao longo do dia, modulando calor e luminosidade conforme a exposição.

O edifício também foi desenhado para gerar um microclima interno, com aberturas estrategicamente posicionadas que canalizam ar fresco e luz natural para dentro da estrutura. Outra inovação anunciada é um sistema de refrigeração movido a água do mar, voltado a reduzir o consumo de energia e garantir conforto térmico o ano todo. Segundo a empresa, o projeto já garantiu nove certificações ambientais internacionais, posicionando o arranha-céu horizontal como uma referência de sustentabilidade para a cidade.

Jane Street e a aposta financeira no arranha-céu deitado

O interesse do mercado pelo Central Yards já se traduz em números concretos. A Henderson Land anunciou que mais de 70% do espaço de escritórios da Fase 1 já foi alugado, mesmo antes da conclusão da obra. O inquilino-âncora é a Jane Street, firma americana de trading quantitativo, que assinou contrato para ocupar mais de 223 mil pés quadrados, distribuídos em seis andares, cerca de dois anos antes da entrega prevista para o início de 2027.

Segundo o South China Morning Post, o contrato prevê aluguel de cerca de 3,9 milhões de dólares por mês, com vigência de cinco anos a partir de 2028 e opção de renovação por mais quatro anos. A própria Henderson classificou o acordo como a maior transação isolada de locação de escritórios do distrito Central em décadas. Para um mercado de escritórios que vinha enfrentando alta vacância e demanda fraca em Hong Kong, fechar esse contrato com tanta antecedência é um forte sinal de confiança no arranha-céu horizontal e na recuperação econômica da cidade.

O Central Yards propõe uma inversão simbólica em uma das cidades mais verticais do mundo: em vez de competir por altura, ele aposta na horizontalidade, na conexão com o mar e na criação de espaço público. É um projeto ambicioso não apenas em escala, mas em conceito, que tenta provar que uma metrópole pode continuar inovando sem necessariamente construir mais alto. Restam dúvidas legítimas sobre acesso público e barreiras de uso, mas o fato é que o arranha-céu deitado de Hong Kong já é uma das obras mais comentadas da arquitetura mundial para os próximos anos.

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